O novo epicentro da inteligência artificial na China enfrenta um gargalo inesperado: a água

O novo epicentro da inteligência artificial na China enfrenta um gargalo inesperado: a água

Marco Antônio
Marco Antônio·24 de agosto de 2026·Atualizada em: 24 de agosto de 2026

A cerca de duas horas de trem a oeste de Pequim, a cidade de Ulanqab, na Mongólia Interior, costumava ser conhecida quase exclusivamente pela criação de ovelhas e pela mineração de carvão. Nos últimos anos, no entanto, a região transformou-se no polo de construção de data centers de inteligência artificial que mais cresce na Ásia. Desde 2016, quase uma centena de instalações computacionais foram iniciadas ou concluídas no local.

Segundo um relatório recente do Goldman Sachs, empresas chinesas já comprometeram cerca de 12,5 gigawatts em capacidade computacional para a cidade — sendo que mais de 70% desses investimentos foram anunciados apenas no último ano. Para fins de comparação, o projeto Stargate, liderado pela OpenAI nos Estados Unidos, prevê atingir 10 gigawatts de capacidade total quando concluído.

A atratividade de Ulanqab envolve uma combinação de fatores geográficos e econômicos estratégicos:

  • Eficiência e custos: A altitude elevada do planalto e os invernos rigorosos reduzem substancialmente o uso de energia para o resfriamento dos servidores. Além disso, a abundância de energia solar, eólica e carvão garante uma das tarifas elétricas mais baixas da China.

  • Proximidade e conectividade: A instalação de dois cabos dedicados de fibra óptica reduziu a latência para menos de cinco milissegundos até Pequim, viabilizando operações em tempo real, como a inferência de modelos de IA.

A ascensão do hub marca uma mudança de postura no mercado de tecnologia chinês. Pela primeira vez, startups e gigantes locais — incluindo DeepSeek, ByteDance, Alibaba e Xiaohongshu — estão investindo massivamente em infraestrutura própria, em vez de apenas alugar capacidade de processamento em nuvem. No passado, esses centros remotos eram destinados ao armazenamento secundário de dados; contudo, a corrida pelo treinamento de modelos de linguagem deu a eles um novo propósito comercial.

O ritmo acelerado dessa expansão, contudo, já encontra barreiras ambientais severas. Ulanqab possui um clima árido, com índices pluviométricos historicamente baixos. A concessionária local de água precisou adotar racionamentos noturnos para conter o consumo da população antes mesmo de vários data centers entrarem em operação. Embora a demanda por água para refrigeração seja mais crítica durante os meses de verão, o consumo acumulado da nova infraestrutura ameaça a sustentabilidade hídrica da região.

Há também o desafio da matriz energética. Embora Pequim incentive a instalação dessas estruturas no oeste do país para aproveitar o excesso de energia renovável gerada na região, cerca de 37% da eletricidade de Ulanqab ainda é gerada por térmicas a carvão. A busca por capacidade computacional ininterrupta continua exigindo a utilização de fontes fósseis, evidenciando o dilema entre a corrida tecnológica e as metas ambientais do país.

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Sobre o autor

Marco Antônio
Marco Antônio32 anosDev. Full Stack/ Editor Chefe

Desenvolvedor Full Stack Jr. que atuou por anos como analista de games indies e AAA. Editor chefe responsável pela curadoria de artigos para a Mangue House.

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