
Eye made of Metal: O terror das Flocks Cams expande sua ameaça

Por anos, a Flock Safety — gigante da vigilância veicular nos EUA — bateu na tecla de que sua tecnologia servia apenas para ler placas e procurar carros roubados, sem "reconhecer, identificar ou rastrear indivíduos". Pois é, parece que o jogo virou. Segundo informações divulgadas pela WIRED, a empresa construiu uma ferramenta de inteligência artificial para a polícia que faz exatamente o que eles prometeram não fazer: identifica motoristas e rastreia veículos baseando-se puramente em seus padrões de movimento.
O sistema funciona semelhante ao que se vê em histórias como Watch Dogs ou Minority Report. Puxando dados de uma rede de câmeras que registra o trânsito em mais de 6.000 comunidades, a nova IA pode isolar potenciais testemunhas (ou suspeitos) pela frequência com que passam em um bairro. Como o sistema também está plugado em arquivos de casos policiais, registros de chamadas para a polícia e bancos de dados comerciais, uma simples placa de carro é rapidamente convertida em nome completo, endereço, documentos e até a lista de parentes e associados do motorista.
Originalmente batizado de Nightshift e agora chamado de OS Investigate, o software já vem com 69 "prompts" (comandos de IA) pré-escritos para os policiais. Após vasculharem o site da Flock, encontrou-seeletrick um tesouro de arquivos revelando 45 ferramentas à disposição dessa IA. É um arsenal que cruza desde metadados de câmeras e registros de prisões até resultados de balística e perfis online.
O assustador aqui é a inversão do modelo tradicional de investigação. Em vez de a polícia ter um crime ou um suspeito para então buscar os dados, o OS Investigate permite que o oficial jogue uma isca comportamental no sistema. Entre os comandos pré-configurados pela própria empresa, estão bizarrices como:
"Me encontre os veículos mais vistos neste bairro nos últimos 14 dias durante a madrugada."
"Liste todo mundo com histórico criminal na área, cruze com as chamadas de emergência em suas casas e faça um dossiê completo dos três principais."
"Quais carros visitaram três ou mais bancos diferentes nesta semana? Ou vários postos de gasolina entre meia-noite e 5 da manhã?"
Entregue o local, o período e o comportamento, e a máquina te devolve quem se encaixa. O sistema até filtra vans de entrega corporativas para focar no cidadão comum fazendo essas rotas. E tem mais: a IA consegue descobrir os "associados" de um alvo apenas calculando quais carros aparecem perto dele nas câmeras repetidas vezes, dentro de uma janela de poucos minutos. O policial entrega um carro, e a IA entrega os vinte amigos dele.
Para especialistas em privacidade e direitos civis, como a ACLU, isso é um pesadelo constitucional. O que antes era uma barreira que exigia mandado judicial e suspeita razoável, agora virou uma pescaria algorítmica. A polícia ganha o poder de fazer buscas amplas, rastreando quem entra, quem sai e com quem você anda, mesmo que não haja crime algum sendo investigado.
Isso ganha contornos ainda mais sombrios quando lembramos do histórico da plataforma. A Flock já enfrenta intensa pressão política porque diversos policiais foram pegos abusando do sistema atual. Só no último ano, oficiais usaram as câmeras para stalkear ex-namoradas, esposas ou mulheres que queriam assediar. Em outro caso, um policial do Texas vasculhou mais de 83 mil câmeras pelo país tentando rastrear uma mulher que fez um aborto autoadministrado.
Do lado corporativo, a Flock tenta colocar panos quentes. A empresa declarou que o produto ainda está em fase de testes com poucas delegacias e que as funcionalidades podem mudar antes do lançamento oficial. Segundo eles, a IA serve apenas para ajudar investigadores a cruzar dados aos quais já possuem acesso legal.
No entanto, o CEO da empresa, Garrett Langley, não esconde o entusiasmo. Em demonstrações, ele já comparou a IA a um analista criminal que "nunca dorme, sempre vigiando você", admitindo sem rodeios que os detetives que testam a ferramenta ficam "viciados". No fim das contas, a infraestrutura para o policiamento preditivo via IA já está montada. A questão não parece ser mais "se" nossos passos serão transformados em métricas de suspeita, mas sim "quando" isso vai virar o padrão das ruas.
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Sobre o autor

Desenvolvedor Full Stack Jr. que atuou por anos como analista de games indies e AAA. Editor chefe responsável pela curadoria de artigos para a Mangue House.

