A China está fomentando ódio às IA's?

A China está fomentando ódio às IA's?

Marco Antônio
Marco Antônio·15 de junho de 2026·Atualizada em: 15 de junho de 2026

Legisladores republicanos, investidores do setor de tecnologia e até mesmo a OpenAI têm atribuído o crescente movimento anti-data centers que tem ocorrido nos EUA e mundo afora à interferência do governo chinês. No entanto, especialistas advertem que, na realidade, o assunto é muito mais complexo e provavelmente estejamos presenciando o agravamento de um movimento de tensão local já esperado.

A cada dia que passa, mais empresas têm se tornado adeptas às ferramentas de inteligência artificial mundo afora, aumentando os custos de energia e a necessidade de criação de novos data centers. Muitas das áreas sendo estudadas para a instalação desses novos data centers têm encontrado resistência das populações locais, e o governo norte-americano tem ligado isso à interferência chinesa.

Este debate, impulsionado por oficiais e investidores mais alinhados à direita norte-americana, afirma que esses protestos têm sido fomentados e financiados pelo governo chinês. A OpenAI também engrossou o discurso na quarta-feira ao publicar um relatório descrevendo que diversas contas em redes sociais, com origem no país asiático, estavam espalhando mensagens contra a construção de data centers.

Diversos especialistas que falaram com portais de notícias, no entanto, possuem dúvidas em relação às afirmações sobre financiamento. Eles afirmam que qualquer indício de interferência estrangeira, na verdade, apenas se soma a uma tensão já existente entre as empresas de inteligência artificial e o povo norte-americano.

Realmente, a população dos EUA tem se mostrado cada vez mais contrária à instalação de novas infraestruturas do tipo. Uma pesquisa divulgada recentemente demonstra que mais da metade da população americana apoia uma paralisação no desenvolvimento de data centers. Uma agência de pesquisa do Reino Unido também publicou, no começo de junho, um estudo que mostrava que, de quinze países analisados, os EUA eram a nação com o menor nível de apoio a data centers.

Mesmo com dados concretos apontando para oposição local, a tese de que Pequim estaria incitando sentimentos contra data centers na América do Norte ganhou força em Washington, D.C. O senador Tom Cotton enviou ao procurador-geral interino, Todd Blanche, um pedido de investigação sobre a possível influência estrangeira "comandada pelo Partido Comunista Chinês" a fim de manipular a opinião pública. Ele não está sozinho nesta empreitada: líderes republicanos do Comitê de Energia e Comércio da Câmara enviaram uma carta à Casa Branca e ao FBI expressando preocupação em relação a campanhas estrangeiras com esse fim.

No mês passado, Doug Burgum, Secretário do Interior, disse à Fox Business que locais-chave para a construção de data centers têm sido "bombardeados" com propaganda estrangeira. O movimento rapidamente ganhou eco entre investidores; Kevin O'Leary, responsável pela construção de um controverso data center em Utah, apresentou um gráfico em maio alegando que a oposição estrangeira tem fomentado o atraso de seu projeto.

Dina Sadek, uma analista da Graphika — empresa responsável por analisar dados de redes sociais, incluindo Facebook, Bluesky e TikTok —, afirmou que a empresa "ainda não viu provas de operações de influência escalonadas que liguem diretamente os protestos a atores estrangeiros". Porém, ela diz que há duas exceções notáveis. A primeira é uma rede de perfis multiplataforma que utiliza avatares gerados por IA para comentar diversos temas sociais e que, esporadicamente, menciona empresas de tecnologia norte-americanas. A segunda seriam páginas do Facebook que publicam imagens anti-data centers geradas por IA; de acordo com Sadek, essas páginas frequentemente possuem administradores na região de Bangladesh e existem apenas para fins de monetização.

A pesquisa contínua indica, na realidade, que são os próprios habitantes dos Estados Unidos que lideram as conversações e os protestos contra data centers, de acordo com Sadek.

O relatório da OpenAI inclui imagens anti-data centers geradas pelo próprio ChatGPT, que a empresa afirma terem sido usadas em campanhas para amplificar preocupações públicas reais sobre o preço da energia e impactos ambientais locais. No entanto, os legisladores republicanos basearam suas acusações de financiamento estatal em outro documento — um relatório do Bitcoin Policy Institute — que alega que uma rede de organizações não governamentais recebe fundos do Partido Comunista Chinês para financiar suas operações de oposição.

Do outro lado da conversa, especialistas afirmam possuir grande ceticismo em relação aos relatos que citam envolvimento direto e intencional de Pequim nesse discurso sobre data centers. Kyle Chan, do Instituto Brookings, aponta que o intercâmbio entre acadêmicos chineses e americanos em fóruns globais é totalmente normal.

"Se você busca pessoas importantes da área na China que possam discutir sobre o assunto, elas serão as mesmas pessoas que aconselham o governo chinês, especialmente na academia, onde há muito vai e vem entre especialistas e o governo", disse Chan.

Graham Webster, pesquisador do Centro de Segurança e Cooperação Internacional da Universidade de Stanford, afirma que os supostos sinais apontados nestes relatórios sobre o envolvimento do governo chinês não condizem com casos reais e documentados de operações de influência do Partido Comunista Chinês no passado.

Tanto Chan quanto Webster reforçam, no entanto, que já houve interferências relacionadas ao país asiático no passado, amplificando problemas sociais reais para gerar discórdia nos EUA — como ocorreu nos protestos relacionados a Gaza. Especialistas concluem que, mesmo que os protestos contra os data centers tenham surgido organicamente pela população local, há grandes chances de atores estrangeiros se infiltrarem e explorarem esse sentimento no futuro.

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Sobre o autor

Marco Antônio
Marco Antônio32 anosDev. Full Stack/ Editor Chefe

Desenvolvedor Full Stack Jr. que atuou por anos como analista de games indies e AAA. Editor chefe responsável pela curadoria de artigos para a Mangue House.

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