
Trilhões para Musk, poluição para Memphis: IPO da SpaceX expõe crise ambiental em Data Centers da xAI

O mercado financeiro foi sacudido esta manhã com a vinda a público da SpaceX no mercado de ações, com uma avaliação de mercado prevista acima de US$ 1,75 trilhão! Isso consolida ainda mais a fortuna de Elon Musk como uma das maiores, senão a mais vasta, da história da humanidade.
Esta injeção maciça de capital permitirá que a SpaceX invista ainda mais pesado e rápido na criação e expansão de data centers para alavancar suas ambições em IA. Porém, há uma forte corrente de vento soprando contra as velas dos planos de Musk e de seus investidores. Moradores das áreas que já abrigam os enormes data centers da xAI estão em busca de justiça e prestação de contas pelo grande declínio na qualidade de vida que as regiões sofreram após a instalação das estruturas, afetando a qualidade do ar, da água e sonora.
Justin Pearson, da Câmara dos Representantes do Tennessee, disse em entrevista: "Somos uma colônia de expatriados e explorados por aquela que será uma das entidades mais valiosas do mundo! Pessoas irão morrer por conta dessa poluição."
A xAI vende anualmente cerca de US$ 15 bilhões em poder computacional, em seus campi de Memphis, para a Anthropic — outra empresa que prevê uma arrecadação arrebatadora em seu IPO nos próximos meses. "As pessoas não importam para a SpaceX, para a Anthropic ou para quem quer que esteja construindo esses data centers", acrescentou Pearson.
Abordando o tema sob outra ótica, o ex-presidente Donald J. Trump sugeriu que o governo norte-americano poderia adquirir uma participação financeira nessas empresas de IA de ponta, afirmando que o retorno monetário desses investimentos seria revertido para o povo americano. No entanto, não ficou claro como isso seria feito ou se realmente sairá do papel.
O primeiro grande sinal vermelho contra o enorme campus Colossus 1 em Memphis surgiu quando a população denunciou a utilização de turbinas movidas a gás natural sem licença para suprir a demanda energética necessária para o funcionamento do local. Reguladores afirmam que a empresa utilizou uma brecha na Lei do Ar Limpo (Clean Air Act), permitindo que operassem até 35 dessas turbinas por um ano inteiro sem permissão. No ano passado, os reguladores emitiram uma licença para que a empresa utilizasse um número reduzido, de 15 turbinas, até 2027.
O grande risco destas turbinas está em suas emissões de matéria fina nociva ao corpo humano. A chamada PM2.5 é uma partícula extremamente fina que se relaciona a diversas doenças, como ataques cardíacos, pressão alta e até mesmo mortes prematuras para pessoas já predispostas. Especialistas alertam que a poluição por PM2.5 pode ser prejudicial mesmo abaixo dos níveis estabelecidos por reguladores.
O primeiro grande data center da xAI foi instalado em Boxtown, uma comunidade historicamente negra em Memphis, já conhecida por ter uma das maiores taxas de asma do país devido à poluição industrial residual. Moradores e organizadores comunitários, como Richard Massey, relatam: "Todos nós que temos família em South Memphis conhecemos alguém que morreu de um problema brônquico ou de um câncer aleatório que não tem histórico na nossa árvore genealógica."
Em janeiro deste ano, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) emitiu diretrizes para bloquear essa brecha na Lei do Ar Limpo. Porém, a empresa já havia começado a instalar turbinas sem permissão em Southaven, Mississippi, para alimentar o campus Colossus 2. Até meados de maio, e-mails enviados a reguladores mostravam que a xAI já havia trazido pelo menos 46 turbinas a gás não licenciadas.
Grupos de justiça ambiental, liderados pela NAACP, entraram com uma ação judicial contra a xAI no início do ano justamente pela instalação das turbinas de maneira não regulada e sem respeito à saúde local. Esta ação agora é seguida por um novo processo coletivo movido pela comunidade de Southaven, que alega que a construção do data center trouxe enormes distúrbios para a região.
Especialistas afirmam que os data centers trouxeram uma grande margem de recolhimento de impostos. O Condado de Shelby, por exemplo, estima arrecadar até US$ 28 milhões em impostos de propriedade apenas do campus do Tennessee neste ano. No ano passado, a prefeitura exigiu que 25% dessa receita fosse revertida em melhorias nos bairros afetados, como Boxtown.
No entanto, moradores e especialistas debatem que o valor revertido é ínfimo. Os US$ 3 milhões previstos para projetos em 2025 representam cerca de 0,001% dos US$ 250 bilhões em que a xAI foi avaliada. Além disso, análises apontam que, se as 41 turbinas listadas para o Colossus 2 operarem continuamente, elas poderão gerar um prejuízo de até US$ 44 milhões anuais em danos relacionados à saúde, um valor muito superior ao arrecadado. E monitores comunitários já atestaram que os níveis de PM2.5 estiveram consistentemente acima dos limites da EPA.
Outro grande risco é o uso de recursos hídricos. Apenas o Colossus 1 pode exigir mais de 18 milhões de litros (5 milhões de galões) de água por dia para refrigeração nos horários de pico. A xAI prometeu construir uma estação de tratamento e reúso de água para evitar impactos no aquífero.
Mas, mesmo após iniciar as obras em outubro, a empresa paralisou a construção abruptamente em abril. Em um tweet, Musk justificou: "Precisamos focar em terminar o Colossus 2 e garantir que ele seja extremamente estável, e só então construiremos a usina de reciclagem de água."
Apesar do clamor público e dos múltiplos processos judiciais, a SpaceX continuou adicionando turbinas sem permissão. O prospecto do IPO revelou um compromisso de mais de US$ 2,8 bilhões na compra de turbinas a gás nos últimos meses e, embora cite a disponibilidade de água como fator de risco, sequer menciona a construção da estação de tratamento.
Para Richard Massey, o histórico de Elon Musk em conflitos ambientais no passado — em regiões da Califórnia, Texas e até mesmo na Alemanha — mantém a comunidade apreensiva, mesmo com as promessas de retorno de impostos e da estação de tratamento.
"Em todos os lugares por onde ele passou, o resultado foi o mesmo", diz ele. "As pessoas sofrem, especialmente em comunidades marginalizadas e de baixa renda."
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Sobre o autor

Desenvolvedor Full Stack Jr. que atuou por anos como analista de games indies e AAA. Editor chefe responsável pela curadoria de artigos para a Mangue House.
